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 Eu
morava no primeiro andar de um prédio no Leblon. Meu apartamento
tinha um terracinho, como um quintal, construído em cima da garagem.
Esse terraço dava fundos para as varandas dos outros apartamentos.
Eu morava com 6 gatos. Mini é filho da siamesa Nikita e do
Nico, gato de rua preto e branco, o menor dos 4 irmãos.
Bom, um dia volto do trabalho, era terça feira, dia da faxineira,
abro a porta e vejo bem no meio da sala um relógio Seiko prateado
e um bombom Sonho de Valsa. "Nossa", pensei, "a Lene
estava com pressa de ir embora hoje..." Dias depois apareceu
na cozinha um chaveiro com as chaves de um Fiat. "Quem esqueceu
isso aqui e nem ligou?"
Desci para tomar um sorvete. A síndica veio falar comigo e me diz
meio sem graça que "o coronel do segundo andar disse que seu
gato roubou o relógio dele" e fala baixinho: "Vai lá
conversar com ele, vai... acho que ele está maluco..." Respondi
meio no piloto automático: "Acho que não." Eu estava
sinceramente encantada.
Toco a campainha no segundo andar. O coronel é gentil, adora bichos,
diz que o gatinho preto e branco vem sempre ver TV com ele, e um
dia pulou a janela de volta pra casa com uma coisa brilhante na
boca. Só mais tarde, diz ele, ao procurar pelo relógio que estava
no criado mudo e não encontrar...
"Um Seiko prateado?" pergunto, morta de vergonha... claro
que era. Vou em casa, volto com o relógio, o bombom e o chaveiro.
O coronel agradece, diz que o bombom pode ficar para o gatinho,
mas... aquelas não eram as chaves do seu carro!
Corri para a portaria e digo ao porteiro que alguém tinha perdido
as chaves de um Fiat no elevador e volto rapidinho pra casa!
Sempre ganhei presentes de meus gatos: folhas secas, uma lagartixa,
um ratinho, baratas mortas, pedaços de papel, coisas assim que os
gatos dão mais valor. O Mini não entende muito de estilo,
mas sabe como agradar um humano! Conversando depois com o porteiro
de um prédio do outro lado do quarteirão, ouço ele contar a história
do gato ensinado da Venâncio Flores que roubava
dólares dos apartamentos vizinhos... Mini é agora uma lenda viva
no Leblon.
 Ele
sempre chega como o pai do Bambi no meio do incêndio na floresta:
é o rei, não tem medo de nada. Nem de cachorros, outros
gatos, água... Seu nome é Jean. É irmão
do Mini. É o gato que sabe tudo de mim, o que sinto. Também
é sem vergonha e mijão. Sonho às vezes com
ele.
Um sonho: moro sozinha numa casa de madeira perto de um pântano,
parece o bayou, Louisiana. Dois ladrões armados me
ameaçam. Um homem pula do alto de uma árvore e os
mata com as próprias mãos. Esse homem é o gato
Jean.
De outra vez eu viajava por uma terra desconhecida, com árvores
enormes e casas antigas. Procurava um endereço e vagava
de cidade em cidade, de taxi, de barco por um rio largo, completamente
perdida. Entrei num trem cheio de gente fantasiada. Ninguém
falava comigo... olhava a floresta passar pela janela, desanimada,
quando chegou um homem tão alto que eu não via seu
rosto, meio nublado como entre nuvens. Esse homem me ensina o
caminho certo, eu estava salva. Agradeci e aí vi seu rosto,
era o gato Jean.
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