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Era uma noite escura de tempestade. Eu trabalhava no computador quando ouvi o miado alto de um gatinho na rua. Desci para ver, o bichinho estava embaixo dos carros estacionados na calçada. Não teve jeito de pegá-lo. Fui em casa e voltei com presunto, leite, carne moída. Ele devorou tudo sem me deixar chegar perto. Tigrinho, peludo, cerca de 2 meses.

Com toda razão detestava gente. Só um filho da puta abandona um bicho assim, ainda mais numa noite de chuva. O gatinho fugia por baixo dos carros estacionados, perigo de verdade. Levei minha gata Leonora pra ajudar a pegar o bichinho. Já amanhecia. Deu certo. Quando Poki viu Leonora correu pra junto dela e eu o peguei. Com o tempo passou a gostar de nós. Com reservas, claro. Detesta qualquer movimento brusco. É um gato-lince enorme, meigo, finíssimo. Não briga com os outros gatos: uma só patada firme na testa do inimigo resolve qualquer questão. Em silêncio, enquanto eu pensava que ele era só um bebê de 5 meses, engravidou duas gatas adultas sem que se ouvisse um só miado mais alto na casa. Poki sempre sabe o que os outros sentem e detesta grosseria.

Se fosse uma pessoa seria um inglês daqueles que caçam marrecos e perdizes de vez em quando para o jantar. Teria roupas lindas, confortáveis e meio gastas, só porque mandaria o mordomo vesti-las até que perdessem o ar de festa na roça.

 

Só uma gatinha nasceu normal naquela ninhada. Os outros tinham só 3 dedos em cada patinha e o rabo torto, cotó. Mas não ligavam nem um pouco pra isso e eram bem espertos. O siamês, parecido com a avó, era o maior de todos. Tinha a cauda torcida e eu o chamei de BABE, como o porquinho do filme. Tinham 45 dias quando começaram a comer ração. A outra irmãzinha foi logo doada. Babe comia como um leão e era bem forte. NAOMi, a pretinha, não. Alternava uma disposição incrível para brincar com dias em que chorava triste num canto.

Começou a emagrecer. No veterinário soube que a bichinha tinha tinha uma má formação interna, uma fístula. Era pequena e muito fraca e a cirurgia para corrigir esse defeito era complicada... Pessoas me diziam que seria melhor sacrificar a gatinha. Eu não podia. Quando estava bem brincava como se quisesse viver todo o tempo de sua vidinha em poucas horas.

Ouvi falar de uma clínica especializada, Gatos e Gatos. Lá a doutora Heloísa Justen disse que operaria a gatinha assim que ela pesasse um quilo. Naomi ainda demorou 50 dias para chegar lá. Foi operada com sucesso, cresceu e engordou. Foi quando a bruxa infeliz que morava ao lado envenenou meus gatos. Com a resistência baixa por causa do envenenamento dois gatinhos recém resgatados da rua tiveram panleucopenia, doença contagiosa e mortal. Logo todos os gatos da casa estavam contaminados.
Perdi dez gatos durante dois meses em que eu pensei que também fosse morrer de dor. Babe morreu. Naomi está viva e bem. É uma gatinha anã, tem dois anos e tamanho de cinco meses. Valentona e mimada, bate em gatos muito maiores que ela.

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