|
por Janaína Barroso | ilustrações
de José Octavio Galvão
Graças
à Carolina minha Vó teve 14 gatos e conta a história
de todos eles como de velhos amigos que se foram. Da Gata Carolina
ela fala com lágrimas nos olhos como quem fala de uma filha
muito querida. Carolina é uma lenda em minha família
e não há um só descendente do Sr. Manoel Barroso
que não a conheça. Agora apresento Carolina a vocês.
Minha
avó tinha um armazém na Vila Carrão-SP, quase
uma chácara. Ela não gostava de gatos: eles roubam
o fôlego, atacam crianças, transmitem asma, têm
parte com o coisa-ruim, etc, etc. Um dia apareceu no quintal uma
gata descrita como a gata mais feia do mundo: cheia de cicatrizes,
adulta mas mirrada, magrela, uma coisinha tricolor fuzenta... sim,
selvagem a bichinha! Minha mãe, com seus 5-6 anos, já
adorando tudo que é ser peludo vivente, começou a
deixar comida para atrair a gata e a batizou de Carolina. Minha
Vó aceitou a bichana já que minha mãe, responsável,
cuidava da bichinha. Além disso apareceram ratos no armazém
e Carolina era uma caçadora implacável.
Aos poucos Carolina conquistou a Vó... e de manhã
lá iam as duas pro armazém, a Vó seguida pela
fiel Carolina. A espertissima gata logo aprendeu que só a
Vó podia mexer no balcão.
A Vó se afastava e Carolina pulava no balcão, a andar
de um lado pra outro, o rabo finissimo bem espetado, imponente como
diz Dona Ramona... e se alguém tentasse tirar qualquer coisa
do balcão, fúúúúúúúú,
coitado dele, patada na certa! Minha Vó ria a valer com os
clientes enquanto eles tentavam enganar a Carolina e tocar no balcão.
Carolina
morreu de velha sem nunca ter deixado de seguir minha Vó
pro armazém, sem nunca ter sido enganada no balcão,
rápida e destemida até o final. Essa é só
uma das histórias que minha Vó e minha mãe
contam dela.
Passei muitos domingos felizes ouvindo histórias da Carolina.
Depois do almoço minha Vó arrumava a cozinha sob o
olhar dos 5 netos que ouviam hipnotizados as histórias da
Gata Carolina e seus filhinhos
Não cheguei a conhecer Carolina, mas as descrições
da minha mãe e avó são tão vívidas
que a imagino com perfeição: magrinha, mirrada, tricolor
com o amarelo bem forte e uma bola preta nos olhos como máscara
de bandido.

Os filhos dela viveram muitos anos com
minha Vó. Chaninho, petibanco manhoso, gato grande, gordo,
inteligente, obedecia ao chamado e aprendia muitas coisas, morava
dentro de casa e morreu já bem velho, meio ceguinho. Pelé,
preto brilhante, safado, matador imbatível de ratazanas,
passeador de telhados, indomável, odiado pelos vizinhos que
gritavam que aquele era o próprio coisa ruim. Pelé
era musculoso mas pequeno como sua mãe.
O que leva a outra história da gata Carolina, essa da mãe
coragem. Como eu disse, Pelé era unanimidade entre os vizinhos,
todos o detestavam. Só encontrava o amor na casa da minha
Vó e adorava minha mãe, único ser humano que
tinha permissão de tocá-lo.
Um dia um vizinho truculento, sargento do exército, furioso
com o Gato Pelé, entrou no armazem dizendo que agora aquele
filho de demonio não iria viver nem mais um dia. Trazia seu
cão pastor, enorme, temível, que atiçou em
cima do gato que dormia em cima das sacas de farinha do armazem.
De repente um ganido de dor, ganido mesmo, minha Vó mal viu
o relampago tricolor saltar sobre o cão que avançava
rosnando em direção ao Pelé... só viu
o cão ganindo e se debatendo com uma enfurecida Carolina
no seu focinho, firmemente grudada com suas garras, enquanto bufafa
e detonava a cara do cão. O cachorro desesperado corria com
o estranho adereço de gato grudado na cabeça, seguido
pelo dono que gritava: "Alguém salve o Rex tira essa
coisa dele!" E minha Vó: "Carolina, vem cá,
solta ela cachorro malvado". Foi uma corrida de 3 quadras,
até que Carolina soltou do cachorro e pulou no colo da minha
Vó, com o rabo parecendo uma escovinha de tão grosso,
e pose de quem diz: mostrei a ele, mamãe.
Minha Vó nunca mais deixou Pelé no armazém
com medo que outros doidos fizessem maldades contra ele.
Pelé morreu muitos anos depois atropelado em frente de casa.
Enquanto Carolina viveu nunca mais deixou um cão entrar em
seu armazém. Era temida e odiada por todos os cães
da região, que a ouviam bufar do balcão quando se
aproximavam.
O dono do Rex ficou fulo da vida com minha Vó e veio reclamar
no dia seguinte. Meu avô riu na cara dele e disse: "A
culpa foi sua! Se perturbar ou voltar aqui eu solto a Carolina em
cima de você!"
Seja por medo da ameaça ou pelas risadas dos outros fregueses,
o cara nunca mais entrou no armazém.

Uma das histórias da Carolina até parece coisa de
Disaster Movies... Minha Vó amava profundamente a Carolina
e naquela época era raro levar um gato ao vet. Tudo que a
espanhola mais queria era que Carolina tivesse uma ninhada...
Mas a Carolina era uma gata mirrada, tinha o tamanho de um gatinho
de 6 meses. Talvez fosse conseqüência do abandono nos
primeiros anos de vida e ninguém sabia a idade dela quando
entrou pra família. Carolina namorava, passava a noite fora,
engravidava, mas pra tristeza geral seus filhinhos sobreviviam poucas
horas apenas, pequenos e fraquinhos.
Naquele tempo nem se cogitava em castrar um gato. Carolina teve
muitas gestações infelizes, até que na ultima
vez nasceu uma ninhada saudável, que a arisca mamãe
escondeu entre os fardos de alfafa (não riam, naquela época
o meio de transporte mais freqüente no Carrão era o
cavalo, e meu avô tinha o dele). Tudo ia bem, só que
os gatinhos não pareciam em nada com sua mamãe.
Uma noite todos acordam assustados: o depósito do armazém
estava em chamas. Em meio à confusão Carolina corria
enlouquecida, miando desesperada, entrando e saindo do prédio,
acompanhada pelos gritos de minha Vó: "Taico os filhinhos
da Carolina estão no depósito, temos que tirá-los
de lá!"
Meu tio desesperado segue Carolina até os montes de alfafa
que começavam a incendiar, e no centro, onde os fardos formavam
uma caverninha, viu a gata desaparecer e depois tentar escalar as
paredes com um filhote na boca, sem conseguir... Logo ela, tão
corajosa e ágil, tomada pelo medo não conseguia tirar
seus filhinhos da casinha que lhes preparara. Meu tio pegou os gatinhos
e correu pra fora do armazem seguido pela Carolina.
Minha Vó levou Carolina e filhinhos pra casa e tentou consolar
a gata do enorme susto. Mas da ninhada, talvez intoxicados pela
fumaça, uma menininha e um menininho morreram. Dois sobreviveram:
dois rapazes, um preto e branco e um pretinho até o último
pêlo. Minha Vó os batizou Pelé e Chaninho, dos
quais sei muitas histórias. Carolina nunca mais engravidou.
|